Ideia principal: O caminho de conversão proposto na quaresma tem em vista confirmar-nos nesta certeza: É em Deus – e não noutras propostas, por mais encantadoras que sejam – que está a fonte da vida verdadeira.

LEITURA I – Génesis 2,7-9; 3, 1-7

O Senhor Deus formou o homem do pó da terra […] Fez nascer na terra toda a espécie de árvores,
[…]entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais […] Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: “Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do Jardim”?» […] A mulher viu então que o fruto da árvore […] e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu o fruto e comeu-o; depois deu-o ao marido […].

– Lemos o relato jahwista da criação, um texto tempo do rei Salomão (sec X a.C.). A finalidade do autor, um catequista popular, não é científica ou histórica, mas teológica: mais do que ensinar como o mundo e o homem apareceram, ele quer dizer-nos que Jahwéh está na origem da vida e do homem. Usa imagens dos povos vizinhos, mitos sobre as origens, que adapta e põe ao serviço da catequese e da fé de Israel.

– O pecado dos nossos primeiros pais não foi ir contra uma proibição arbitrária – comer “o fruto da árvore que está no meio do jardim”; nem é ter a pretensão de “ser como deuses”, já que essa é a intenção do Criador que fez o homem à Sua imagem … “e nós seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é”(cf.  1ª Jo 3,2); nem, tampouco, o desejo de conhecer e discernir: essas são prerrogativas dos seres espirituais…

– O pecado é recusar a dependência de Deus; é desconfiar de Deus, desconfiança que leva homem a fazer escolhas que vão contra a vontade do Criador; é recusar aprender de Deus o discernimento, desobedecendo à Sua palavra… um ato de orgulho, uma ingratidão, uma atitude mesquinha face Àquele que quer o nosso bem. Por causa da soberba, o homem volta-se para o alvo errado e aniquila-se. Oh astúcia insensata!

LEITURA II – Romanos 5, 12. 17-19

Se pelo pecado de um só pereceram muitos, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. […] De facto, como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornarão justos.

– No início da quaresma, a Palavra de Deus convida-nos à “conversão” – isto é, a recolocar Deus no centro da nossa existência, a aceitar a comunhão de vida com Ele, a escutar as Suas propostas e pô-las em prática. Paulo, na 2ª Leitura, propõe-nos dois exemplos: Adão, por cuja desobediência, veio o sofrimento e a morte; Jesus, que viveu na obediência às propostas de Deus… Por Ele nos vem a vida plena e definitiva.

– Este trecho de Romanos fundamente a doutrina sobre o pecado original, resumida no nº 403 do Catecismo da Igreja Católica: “Depois de S. Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens, e a sua inclinação para o mal e para a morte não se compreendem sem a ligação com o pecado de Adão e o facto de ele nos transmitir um pecado de que todos nascemos infetados e que é a morte da alma”.

– Importante para nós, como esforço para esta quaresma, é aquilo que foi uma evidência para o Apóstolo: a intervenção de Cristo na história humana trouxe consigo um dinamismo de esperança, de vida nova, de vida autêntica. Cristo veio propor à humanidade um caminho de comunhão com Deus e de obediência aos Seus projetos; é esse o caminho que conduz o homem à salvação.

EVANGELHO – Mateus 4,1-11

Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Demónio […] O tentador aproximou se e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». […] levou O ao pináculo do templo e disse Lhe: «Se és Filho de Deus, lança Te daqui abaixo […]. De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto […] e disse Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu lhe Jesus: «Vai te, Satanás, porque esta escrito: ‘Adoraras o Senhor teu Deus e só a Ele prestaras culto’». Então o Demónio deixou O e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.

– Os destinatários do Evangelho de São Mateus, judeo-cristão quase todos, conhecem bem o A. Testamento, por isso percebem o paralelismo entre Israel, o filho que Deus chama do Egipto e se comporta com rebeldia, e Jesus, o Filho obediente. Face a três acontecimentos do Êxodo: o dom do maná (Ex 16), a falta de água (Ex 17), o bezerro de ouro (Ex 32), o povo murmura, enquanto Jesus supera as mesmas tentações.

– As tentações de Jesus, quer cronologicamente, quer em termos lógicos, vêm a seguir ao Batismo (cf. Mt 3,13-17), encaixadas entre o batismo e o início da pregação do Reino de Deus.  Jesus, o Filho amado do Pai (Mt 3, 17), é tentado pelo diabo, diá-bolos, o máximo “separador” comum. A tentação consiste na subversão da vontade do Pai para ficar com os reinos deste mundo. “Vai-te, Satanás!”, é a resposta de Jesus.

–  O “deserto” bíblico não é um lugar geográfico, mas teológico: o lugar da “provação”, onde o povo Hebreu experimentou o abandono de Jahwéh; mas é também o lugar do encontro com Deus, onde aprendemos a escutar a voz dos silêncios de Deus e a ler o mapa da Sua Palavra. É um lugar de passagem, que não serve para morar e, como tal, uma metáfora da nossa vida, onde, como peregrinos estamos de passagem.

Rezar a Palavra

Pai Santo, só a Vós eu me prostro! Bendigo sejais pela Palavra que sai da vossa boca; eu a acolho em Jesus vosso Filho. A tentação acompanha-me desde o Batismo e perseguir-me-á até morte, visando afastar-me de Vós e dos vossos dons, para servir os deuses mundo. Dou-Vos graças, Pai Santo, porque Jesus me aponta o segredo da vitória sobre o tentador: a fidelidade e a obediência à Palavra. Ó Palavra eterna! Amem.

Cónego Armando Duarte
22 de Fevereiro de 2026