Ideia principal: Diante o projeto de Deus que conduz à vida plena, “balizado” pelos mandamentos, o homem pode acolhê-lo para si ou, na sua autossuficiência, recusá-lo. Porém, do seu acolhimento, depende a felicidade plena e eterna de cada um. Cristo, não quer que nos fiquemos pelos servições mínimos… è preciso procurar a vontade do Pai e a ela aderir com paixão e compromisso.
LEITURA I – Ben Sirá 15, 16-21 (15-20)
Se quiseres, guardarás os mandamentos: ser-lhe fiel depende da tua vontade.
[…] Diante do homem estão a vida e a morte: o que ele escolher, isso lhe será dado.
[…] Ele conhece todas as coisas do homem. Não mandou a ninguém fazer o mal,
nem deu licença a ninguém de cometer o pecado.
– Jesus Ben Sira, um judeu tradicional, considera a Tora (a Lei) dada por Deus ao Seu Povo, a súmula da sabedoria. Por isso, os seus concidadãos, que desejam a verdadeira felicidade, devem buscá-la na fidelidade à cultura, à fé, aos valores tradicionais de Israel, recusando a sedução da cultura helénica. O Livro de Ben Sira (ou Sirácide, ou Eclesiástico) é do início do séc. II a.C., já depois da batalha de Pânias (198 a.C.), em que os selêucidas puseram termo ao domínio dos ptolomeus na Palestina, tentam impor a cultura helénica.
– Jesus Ben Sira expressa com muita clareza aquela que é a sua convicção: Deus respeita a liberdade do homem, que não é telecomandado por Deus. Longe disso… é um ser livre, que faz as suas escolhas. Deus indica-lhe o caminho para chegar à vida; mas, depois, respeita em absoluto as opções que o homem faz.
– Ao rejeitar o determinismo, o autor sagrado revela o verdadeiro rosto de Deus e a grandeza do homem. Ao invés, não raro, os nossos contemporâneos vivem como que determinados pelos astros, pelo passado, pela genética, pelas modas, pondo em causa a sua liberdade e a capacidade de fazerem escolhas para a vida.
LEITURA II – 1ª Coríntios 2, 6-10
Irmãos: Nós falamos de sabedoria entre os perfeitos, […] Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu; porque se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória.
Mas a nós Deus o revelou por meio do Espírito Santo,
porque o Espírito Santo penetra todas as coisas, até o que há de mais profundo em Deus.
– Continuamos na discussão sobre a verdadeira sabedoria, que teve origem na pretensão dos coríntios de fazer da fé cristã mais um caminho filosófico ou a uma ideologia, que, como nas escolas filosóficas gregas, devia ter a orientação de mestres: para uns, Paulo, para outros Pedro, para outros Apolo… Paulo opõe-se, consciente que o único mestre é Cristo e que a verdadeira sabedoria é a sabedoria da Cruz.
– A sabedoria divina, pregada por Paulo, só “os perfeitos” – isto é, aqueles com uma maior maturidade cristã, humana e sobrenatural – a podem entender. A sabedoria da Cruz é misteriosa e oculta, o que não significa contrária à razão humana… é sim sobrenatural, procede da Revelação divina, e por isso só está ao alcance dos que têm fé. Os príncipes deste mundo não a podem entendem porque não têm fé.
– São Paulo afirma claramente a divindade de Jesus e do Espírito Santo… o Senhor da glória: Jesus é chamado de Senhor – Kyrios, que no grego traduz Yahwéh – e, como Senhor, resplandece n’Ele toda a Glória, um atributo divino; O Espírito Santo penetra todas as coisas, até o que há de mais profundo em Deus – porque é Deus, conhece o que há no abismo incomensurável e impenetrável de Deus!
EVANGELHO – Mateus 5,17-37
Disse Jesus aos seus discípulos: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas;
não vim revogar, mas completar. […] Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos,
por mais pequenos que sejam, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus.
Mas aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus.
[…] A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’. O que passa disto vem do Maligno».
– Para entendermos o texto que nos é hoje proposto (a forma longa vai dos vers 17 a 37, do cap 5), convém que nos situemos no ambiente das comunidades cristãs a quem Mateus, pelo ano 80, se dirige… são em maioria os cristãos que vêm do judaísmo, que se perguntam: continuamos obrigados a cumprir a Lei de Moisés? Jesus não aboliu a Lei antiga? O que é que há de verdadeiramente novo na mensagem de Jesus?
– São-nos apresentados quatro das seis antíteses apresentadas por São Mateus (as outras ficarão para o próximo Domingo), introduzidos da mesma forma: “Ouvistes que foi dito aos antigos… Eu, porém, digo-vos…”. O desafio que se coloca aos discípulos é o de acatar as disposições da Tora de Moisés, que não é abolida, mas ter no horizonte a fasquia alta do seu pleno cumprimento que dá acesso ao Reino dos Céus.
– «Não matarás”; “Não cometerás adultério”; “Não repudiarás a tua mulher”; “Não faltarás ao que tiveres jurado»… O homicídio, o adultério, o divórcio e o perjúrio, situações de pecado originadas pelo amor que se desvanece… Que fazer? Mondar as ervas daninhas da ira, do ciúme, do ódio, desprezo; as fissuras que ficam, preenchê-las de mais amor, mais amor, só amor! Eis o necessário para saltar mais alto e mais longe.
Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Senhor, dou-Vos graças porque não desistis de amar, mesmo quando, ao amor com que me amais, respondo com a infidelidade, a ingratidão ou com palavras insensatas da não aceitação da vossa vontade. Acenais-me de novo com a fasquia alta do discipulado: subir ao Monte das Bem-Aventuranças, e de lá me abalançar ao pleno cumprimento das exigências novas da antiga Lei. Senhor, amparai-me nesse salto! Amem.