Ideia principal: Foi São João Paulo II quem, no Jubileu do ano 2000, determinou que o segundo domingo da Páscoa passasse a ser o Domingo da Divina Misericórdia; somos convidados a contemplar a Igreja, que nasce da Cruz e da Ressurreição de Jesus, para testemunhar ao mundo o amor e a misericórdia de Deus.

LEITURA I – Atos dos Apóstolos 2,42-47
Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão
e às orações, viviam unidos e tinham tudo em comum. […] Todos os dias frequentavam o templo,
como se tivessem uma só alma, e partiam o pão em suas casas; […]
E o Senhor aumentava todos os dias o número dos que deviam salvar-se.

  • São Lucas, o autor do Livro dos Atos dos Apóstolos, apresenta três sumários, ou retratos, da primeira comunidade cristã: o que lemos este ano, no “Ano A” (At 2, 42-47), e os que são lidos nos Anos “B” e “C”, At 4,32 e At 5,12, respetivamente. O sumário lido este Ano, sublinha a unidade e o crescimento do grupo dos primeiros cristãos. A comunidade reunia-se para a “fração do Pão” (a Eucaristia) e para a oração.
  • A comunhão fraterna, contudo, não se confina ao culto… concretizava-se na partilha dos bens, a cada um segundo as suas necessidades, encorajada pela perspetiva do próximo regresso de Cristo. Todos entendiam que a comunidade não era um ghetto: os “crentes” (assim se designavam os cristãos para se distinguiram dos judeus), mantinham a sua ligação ao Templo, onde os Apóstolos pregavam e faziam milagres.
  • Os “crentes” distinguiam-se pela alegria, a simplicidade e a caridade de uns em relação aos outros… esta maneira de viver atraía a simpatia de todo o povo que se perguntava: “de onde lhes vem a motivação para viver desta maneira?”. A resposta não podia ser outra: “da Ressurreição de Cristo!”. A alegria era a prova de que Cristo estava vivo. Na força do Ressuscitado, a comunidade, no seu conjunto, irradiava e crescia.

LEITURA II – 1ª Carta de São Pedro 1,3-9
Bendito seja Deus, que […] nos fez renascer, pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos,
para uma esperança viva, para uma herança que não se corrompe,
[…] nem se mancha, nem desaparece, […]. Sem O terdes visto, vós O amais;
sem O ver ainda, acreditais n’Ele. […] E isto é para vós fonte de uma alegria inefável e gloriosa,
porque conseguis o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.

  • Na tradição da Igreja, este domingo, que encerra a Oitava da Páscoa, chama-se in albis. Porquê? Porque aqueles que são batizados na Vigília Pascal, são revestidos com uma veste branca (alba, em latim, significa branca) símbolo da sua nova condição, e, noutros tempos, usavam-na até ao domingo seguinte, em que, como foi referido, desde o Jubileu do Ano 2000, passou a ser celebrada a Festa da Divina Misericórdia.
  • Nos domingos do Tempo Pascal, neste Ano A, escutaremos trechos da 1ª Carta de São Pedro, dirigida aos cristãos das cinco províncias romanas da Ásia Menor (cf. 1 Pe 1,1), nos finais do primeiro século. O autor da Carta – outro Pedro, não o Apóstolo…– exorta os crentes, muitos deles gente rural e pobre, a olhar Cristo Crucificado e a viverem na esperança, no amor e na alegria, para viverem com coerência com a sua fé.
  • A Ressurreição de Jesus tem implicações existenciais: pela união com o Ressuscitado, o cristão “ressuscita” para uma vida nova, “para uma esperança viva”. O objeto dessa esperança é o Céu, que não é uma alienação: tem existência real e está ao seu alcance. Para isso, cada um deve assumir-se como instrumento da Divina Misericórdia, comprometido com o bem-estar espiritual e material dos irmãos.

EVANGELHO – João 20,19-31
Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus,
[…] veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria […].
Tomé, […] não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos:
«Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,
se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei».
Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles.
Veio Jesus, […]e disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
aproxima a tua mão e mete a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente».
Tomé respondeu Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!»

  • João começa por descrever a situação dos discípulos antes de Jesus lhes aparecer: o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”, dizem bem a insegurança e o desamparo que experimentam. O Ressuscitado, vai para o meio deles, que estavam fechados no Cenáculo, e saudou-os repetindo: “A paz esteja convosco”. Aquela Paz que só Ele pode dar, porque é o fruto da Sua vitória radical sobre o mal.
  • O Ressuscitado – que é o Crucificado, de cujo Lado trespassado saiu sangue e água, símbolo do Batismo e da Eucaristia, fez participar os Apóstolos dos dons messiânicos: o Espírito Santo e o perdão dos pecados. Na manhã do primeiro dia institui o sacramento da Penitência para o perdão dos pecados. A paz, o Espírito Santo, os sacramentos, o perdão dos pecados… Tudo nos fala da Divina Misericórdia!
  • Na 2ª parte do Evangelho (vs. 24 a 29) Tomé é reabilitado… Já tinha aparecido duas vezes no Evangelho de João (cf. Jo 11,16; 14,5) e, em qualquer delas, para o autor do IV Evangelho, não se terá saído muito bem. Mas, no final do Evangelho é-lhe feita justiça… é ele quem diz a última palavra sobre a identidade de Jesus: “Meu Senhor e meu Deus” (v.28). Tomé é, portanto, o primeiro a reconhecer a divindade de Cristo.

Rezar a Palavra
Meu Senhor e meu Deus, eu creio, mas aumentai a minha fé! Com a Igreja, em comunhão com os meus irmãos, quero acolher o dom da Paz que me ofereceis; e tornar-me misericordioso pela divina Misericórdia que, do vosso Lado aberto, para todos jorra em abundância. Maria Santíssima, Mãe de Misericórdia, ensinai-me alcançar os dons da Paz e da Misericórdia! Tornai-me, Senhor, sinal da Ressurreição! Amem.

Cónego Armando Duarte
12 de Abril de 2026