Ideia principal: Toda a Liturgia deste 4º Domingo da Páscoa, sobretudo o Evangelho, uma passagem do capítulo 10º de São João, nos fala de Jesus, o “Bom Pastor”, em quem podemos confiar. Ele continua a cuidar de nós através daqueles que chama ao sacerdócio. Rezemos hoje por todos os consagrados, pelos sacerdotes, em especial: por aqueles que passaram pelas nossas vidas e já estão no Céu; pelos que são hoje, para cada um de nós, presença do “Bom Pastor”; e por aqueles que Ele quer chamar a essa missão.
LEITURA I – Atos dos Apóstolos 2,14a.36-41
[…] sentiram todos o coração trespassado e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos:
«Que havemos de fazer, irmãos?» Pedro respondeu lhes: «Convertei-vos e peça cada um de vós
o Batismo em nome de Jesus Cristo, […]. receberam o Batismo,
e naquele dia juntaram se aos discípulos cerca de três mil pessoas.
- O ambiente é o mesmo da primeira leitura do passado domingo: em Jerusalém, na manhã do dia do Pentecostes. Pedro conclui a sua argumentação fundada no Salmo 15, um salmo messiânico… Era de Jesus, o Crucificado, que falavam as Escrituras; d’Ele, o Messias, o Ungido; o Senhor: “kyrios”, em grego; “Adonai”, em hebraico – o nome dado pelos judeus a “Jahwéh”. Jesus, o Messias-Rei, Deus verdadeiro!
- Ao escutarem o “kerigma” que Pedro proclama, os presentes, com “o coração trespassado” pelo arrependimento, dirigem aos Apóstolos, angustiados, uma pergunta: “que havemos de fazer, irmãos?” A Palavra de Deus é sempre denúncia do pecado e apelo à conversão… Pedro responde com as 3 etapas que determinam o caminho da salvação: mudança de vida, o Batismo, a alegria de acolher o dom do Espírito.
- A fórmula para a administração do Batismo, é trinitária por indicação de Jesus: em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (cf. Mt 28,19). Porém, Pedro indica o Batismo em nome de Jesus, não por ignorar a fórmula indicada por Jesus – mas para distinguir o Batismo de Jesus de outros batismos correntes na época; aquele que abre as portas da salvação foi instituído por Jesus e nos enxerta, nos incorpora, em Jesus!
LEITURA II – Primeira Carta de Pedro 2,20b-25
Caríssimos: […] Cristo sofreu também por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos.
[…] Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas.
- A “Carta de Pedro”, escrita já em finais do século I, tem como destinatários cristãos das comunidades do interior da Ásia Menor. São provenientes do paganismo, a maioria são camponeses assalariados e, alguns deles, escravos. Paira sobre todos a hostilidade dos defensores da ordem romana para com os cristãos. Pedro, o catequista autor da Carta, prevê mesmo que o ambiente não demore a ser ainda menos favorável.
- O texto que hoje lemos é um hino a Cristo, cheio de ressonâncias veterotestamentárias: A profecia do 4º canto do Servo de Yahwéh (cf. Is 52, 13 ss); e a alusão a Ez 34, 11-16, neste caso o recurso a um deraxe cristológico… isto é: aquilo que, através do profeta, Yahwéh diz do Seu pastoreio, é agora aplicado a Jesus: “Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas”.
- Como se não bastasse a prepotência dos patrões e a hostilidade dos romanos, os cristãos suportam também os vexames por parte dos seus companheiros que continuam pagãos… Como deverão agir? Seguindo os passos de Jesus que sofreu sem culpa e que suportou os sofrimentos com amor. O cristão deve rejeitar sempre o recurso à violência. É nessa atitude de bondade e de mansidão que se manifesta a graça de Deus.
EVANGELHO – João 10,1-10
Naquele tempo, disse Jesus: “[…] aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas.
0 porteiro abre-lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz.
Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva as para fora.
Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem,
caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz.
“[…] Eu sou a porta das ovelhas. […] Quem entrar por Mim será salvo:
é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem.
O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir.
Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».
- 4º Domingo da Páscoa, o “Domingo do Bom Pastor”. Todos os anos a liturgia propõe, neste domingo, uns versículos do capítulo 10º do Evangelho de João, no qual Jesus é apresentado como “Bom Pastor”, cuja missão é libertar o rebanho de Deus do domínio da escravidão e conduzi-lo às pastagens verdejantes onde há vida em abundância, no respeito absoluto pela identidade, individualidade e liberdade das ovelhas.
- São tantas as vozes à nossa volta… conselhos, opiniões, comentários, boatos… Mas poucas são as que falam ao coração, aí, onde se reconhece a voz do Amado. O “Bom Pastor” chama pelo nome, conhece nossa vida, recorda a beleza e a nossa dignidade de filhos e nunca nos deita à cara as nossas culpas. Abraça-nos com a Sua voz e, sem rodeios, convida-nos a largar o que contaria a Vida que Ele tem para nos dar.
Jesus é “a porta”…, o único acesso às pastagens que nutrem a vida. “Passar pela porta” é aderir a Jesus, segui-lO, acolher as Suas propostas. Esta pertença a Jesus garante a passagem para a terra da liberdade, onde não mandam os chefes que exploram e roubam, servindo-se do seu “rebanho” para satisfazer interesses próprios. Na terra da liberdade estão as “pastagens verdejantes”, isto é, a vida em abundância-
Rezar a Palavra
Senhor Jesus, Belo e Bom Pastor! Ensinai-me a seguir vossos passos. Também hoje, como nos primeiros tempos, muitas vezes tenho de “suportar os sofrimentos por fazer o bem”. Bom Pastor, “guardião das nossas almas”, não permitais que me afaste de Vós. Que eu reconheça a voz d’Aquele que me ama, entre pela porta, me deixe cuidar por Vós, ó Bom Pastor! Na Vida que me dais, seja fiel à minha vocação. Amem.
Cónego Armando Duarte
26 de Abril de 2026