Ideia principal: A Palavra denuncia a tentação de querer servir a Igreja apoiados nas próprias forças e talentos. Não deve ser assim entre os discípulos… sempre experimentarão dificuldades e provações, como já acontecia com os profetas: Jeremias experimenta a perseguição por causa da Palavra; mas não desiste, pois confia n’Aquele que o chamou e enviou. A perseguição está sempre no horizonte do discípulo… Mas, “não temais!”. Jesus garante a Sua contínua presença junto dos discípulos.
LEITURA I – Profecia de Jeremias 20, 10-13
Disse Jeremias: […] Todos os meus amigos esperavam que eu desse um passo em falso […]
.Mas o Senhor está comigo como herói poderoso e os meus perseguidores cairão vencidos. […]
Cantai ao Senhor, louvai o Senhor, que salvou a vida do pobre das mãos dos perversos”.
- Jeremias, o profeta nascido em Anatot por volta de 650 a.C., exerceu a sua missão profética desde 627/626 a.C., até depois da destruição de Jerusalém pelos Babilónios (586 a.C.),, num dos momentos mais dramáticos da história do seu Povo. Jeremias profetizou no reino de Judá, na cidade de Jerusalém.
- Jeremias é o paradigma dos profetas que sofrem por causa da Palavra. De natureza sensível e cordial, homem de paz, que anseia pelo sossego da família; contudo, Jahwéh chamou-o para “arrancar e destruir, para exterminar e demolir” (Jer 1,10), para predizer desgraças e anunciar, com violência, destruição e morte (cf. Jer 20,8). Como consequência, todos o maldiziam. Os familiares, os amigos, os reis, os sacerdotes, os falsos profetas, o povo inteiro, todos se afastavam, mal ele abria a boca.
-As desilusões, as contrariedades, as perseguições fizeram vacilar a sua confiança, mas não o fizeram desistir. Numa sentida oração dirigida àquele que o chamou, Jeremias proclama: “O Senhor está comigo como herói poderoso” (v.11). Deus põe à prova os Seus amigos a fim de os purificar, mas a seu tempo irá intervir, repondo a verdade e proclamando vitorioso quem defendeu uma causa justa.
LEITURA II – Rom 5, 12-15
[…] A morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado […].
Se pelo pecado de um só pereceram muitos, com muito mais razão a graça de Deus,
dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a muitos homens.
- A carta aos Romanos evidencia a tensão entre os cristãos de origem judaica para quem, além da fé em Jesus, é necessário cumprir as obras Lei, e os cristãos de origem pagã que se sentem livres em relação aos preceitos mosaicos. Paulo ensina que o essencial não é cumprir a Lei de Moisés – que nunca assegurou a ninguém a salvação; o essencial é acolher a oferta de salvação que Deus faz a todos, por Jesus.
- Paulo estabelece as contradições entre Adão e Jesus. Desde o início as pessoas pecaram seguindo o exemplo de Adão que desobedeceu e se afastou de Deus. Ao contrário de Adão, Jesus foi obediente ao Pai, até à morte e morte de Cruz. A graça que Jesus nos alcançou pela sua obediência, superou a desgraça atraída pela desobediência de Adão. Assim, pelos méritos de Cristo, Deus comunicou a todos a Sua própria vida.
- Embora Paulo não aborde o tema do pecado original, a verdade é que este texto o fundamenta solidamente. O CIC, no nº 403, ensina: “Depois de S. Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens, e a sua inclinação para o mal e para a morte não se compreendem sem a ligação ao pecado de Adão e ao facto de ele nos transmitir um pecado de que todos nascemos infetados e que é a morte da alma”.
EVANGELHO – Mateus 10,26-33
Disse Jesus aos seus apóstolos: “Não tenhais medo dos homens, pois nada há encoberto
que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se.
[…] Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma.
Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.
[…] A todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens
também Eu Me declararei por ele diante do meu Pai que está nos Céus.
Mas àquele que me negar diante dos homens, Eu o negarei diante do meu Pai que está nos Céus”.
- O ambiente é o mesmo do passado Domingo: o “discurso da missão”, que se prolonga de 9,36 a 11,1. Mateus escreve durante a década de 80. No Império Romano reina Domiciano (anos 81 a 96), que não está disposto a tolerar o cristianismo. O ambiente é hostil e rapidamente degenera em perseguição organizada: no ano 95 tem início uma terrível perseguição contra os cristãos em todos os territórios do Império.
- Por três vezes, o Mestre repete: Não tenhais medo! Não temais! A mesma exortação é repetida 365 vezes na Bíblia, como os dias do ano, como se fosse o pão-nosso de cada dia… um dos atributos de Deus é estar sempre a repetir ao nosso ouvido que está connosco, para que possamos ultrapassar o medo, esse inimigo que corrói o amor! O cristão vive de portas abertas, acolhendo e indo ao encontro, dando a vida, sem medo!
- Uma advertência de Jesus: a atitude do discípulo diante da perseguição condicionará o seu destino último… Os que testemunharam com desassombro a Palavra, encontrarão vida definitiva; porém, os que optaram por uma vida morna, sem riscos, esses não farão parte da comunidade de Jesus. Quem não “levanta ondas” à sua volta, não será que está alinhado com o “mundanismo”, tendo renunciado ao discipulado?
Rezar a Palavra e contemplar o Mistério
Pai Santo, eu Vos bendigo porque me chamastes e, mesmo quando sou fraco, não desistis de mim; continuais a levar-me a sério pois sou precioso a vossos olhos. Vós sois clemente e cheio de compaixão, sempre me suportais e defendeis, meu Protetor! Aprenda eu, com Jesus, o Mestre da coragem, a não vacilar nas dificuldades inerentes à missão, e a viver como discípulo, na alegria e na confiança. Amem.
Cónego Armando Duarte
21 de junho de 2026