Ideia principal: Antes da Quarta Feira de Cinzas, celebrámos o 6º Domingo do Tempo Comum. Meteram-se os Domingos da Quaresma, os Domingo da Páscoa até ao Pentecostes, depois a solenidade da Santíssima Trindade – com ela retomámos o Tempo Comum – finalmente, hoje, o 10º Domingo do Tempo Comum. Sobressai a narrativa da vocação de Mateus, feita pelo próprio. Porém, a tónica da Palavra escutada, é a misericórdia que Deus prefere ao sacrifício. De alguma forma voltamos ao discurso programático de Jesus, o Sermão da Montanha, do qual, no 4º, 5º e 6º Domingo do Tempo Comum, percorremos três das seis etapas. Voltamos, neste domingo, à Bem Aventurança dos Misericordiosos…
LEITURA I – Profecia de Oseias 6, 3-6
Por isso vos castiguei por meio dos Profetas […]
Porque Eu quero a misericórdia e não o sacrifício, o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos».
- A 1ª Leitura é tirada da 2ª parte da profecia de Oseias (4,1-11,11). O profeta exerce a sua missão em Efraim, a partir de 750 a. C.. Efraim e Judá, as duas maiores tribos, designam, nos profetas, os reinos do Norte e do Sul, respetivamente. Oseias denuncia situações que fragilizam o reino do Norte e o hão de conduzir à perda da independência, em 721 a.C., quando Salamanasar V, rei da Assíria, conquista Samaria.
- A imoralidade, a infidelidade e o sincretismo religioso, afundam Israel. Exposto à influência cultural e religiosa dos povos vizinhos, Israel acolhe Baal e Astarte, deuses que coabitam com Jahwéh, no coração do Povo e nos centros religiosos. Deus ama o Seu Povo, e é este amor de Deus – um amor a toda a prova – que torna o pecado mais horrendo; mas, por outro lado, também permite esperar de Deus a salvação.
- Oseias lamenta que o Povo, se volte para Jahwéh só nas aflições, num arrebatamento que logo se esvai “como o nevoeiro da manhã, como o orvalho da madrugada, que logo se evapora” (v.4). A Deus não se interessa uma liturgia hipócrita, feita de exterioridades: “Eu quero a misericórdia e não o sacrifício,
o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos” (v.6). Um jeito de estar que Jesus muito aprecia…
LEITURA II – Epístola de São Paulo aos Romanos 4,18-25
Contra toda a esperança, Abraão acreditou que havia de tornar-se pai de muitas nações […]
Por este motivo é que isto «lhe foi atribuído como justiça».
Não é só por causa dele que está escrito «Foi-lhe atribuído», mas também por causa de nós,
que acreditamos n’Aquele que ressuscitou dos mortos, Jesus, Nosso Senhor, […].
- A generalizada contenda entre o judeo-cristãos e os cristãos oriundos do paganismo, tinha em Roma contornos especiais… No ano 49, um édito do imperador Cláudio obrigara os judeus a deixar Roma, o que, na comunidade cristã, foi um alívio os cristãos de origem pagã… Quando em 57/58, os judeus regressam a Roma, e , entre eles, muito judeo-cristãos, estes são muito mal acolhidos na comunidade cristã. Neste contexto Paulo escreve a Carta aos Romanos.
- Apesar da universalidade do pecado, Deus oferece a todos, de forma gratuita, a mesma salvação e de todos faz, em igualdade de circunstâncias, seus filhos. O dom da Salvação é preciso ser acolhido pelos homens. O Apóstolo dá como exemplo afigura de Abraão; essa figura modelar para judeus e pagãos não foi salva pela Lei nem pelas obras, mas pela fé. Esta fé inabalável constituiu a grandeza de Abraão, que se tornou pai de muitas nações, como tinha anunciado” (v. 18). Filhos de Abrão, somos salvos, como ele, pela fé em Deus e na Salvação que Ele nos oferece em Jesus “que foi entregue à morte por causa das nossas faltas e ressuscitou para nossa justificação” (V.25):
EVANGELHO – São Mateus 9,9-13
Naquele tempo, Jesus ia a passar, quando viu um homem chamado Mateus, […]
e disse-lhe: «Segue-Me». Ele levantou-se e seguiu Jesus.
Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus,
muitos publicanos e pecadores vieram sentar-se com Ele e com os discípulos […]
Vendo isto, os fariseus diziam aos discípulos:
«Por que motivo é que o vosso Mestre come com os publicanos e os pecadores?».
Jesus ouviu-os e respondeu: […] Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício’. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores».
- O Evangelho deste domingo, (voltamos ao evangelista deste Ano, Mateus) é extraído da secção (Mt 4,23 a 9,35) na qual o autor do 1º Evangelho nos mostra Jesus a anunciar o Reino, por gestos e palavras. Da 1ª parte desta secção escutámos 3 das 6 etapas do Sermão da Montanha, no qual Jesus refere a “nova” lei e o programa do “Reino”. Na 2ª parte da secção (cf. Mt 8-9), Mateus apresenta o anúncio do “Reino” através dos gestos (milagres) de Jesus, intercalados por uma reflexão sobre o seu significado. É o caso do Evangelho de hoje: é a Misericórdia de Deus que torna possível aos homens o seguimento de Jesus.
- O chamamento de Mateus e a refeição com os pecadores, os fariseus veem isso como uma provocação. Jesus está ali com pecadores públicos que, em virtude das profissões que exercem ou do género de vida que levam, estão excluídos da vida religiosa e social de Israel. Chama até para discípulo um publicano,
- Jesus completa o ensinamento do Sermão da Montanha: começa por se dirigir aos pobres… e caba por se dirigir também aos pecadores. Deus face ao pecador, a Sua última palavra de Deus é a misericórdia (1ª leitura). Jesus cumpre, na pática, não por palavras, a aliança de Deus com os pobres e os pecadores.
Rezar a Palavra
Ó Deus, ao amor que tendes por Israel, responde o vosso Povo de forma calculista… com aquele culto vistoso, mas vazio, tem a pretensão de Vos colocar ao serviço dos seus propósitos iníquos. Desejaria eu, Senhor, que passásseis pela minha vida como passastes pela vida de Mateus; me olhásseis cheio de Misericórdia. Quero viver em comunhão de vida convosco… Pelo Espírito Santo, convertei-me! Amem.
Cónego Armando Duarte
7 de junho de 2026