Ideia principal: O caminho de conversão e de renovação que nos é proposto em cada quaresma, tem os seus escolhos. Contudo, Deus caminha connosco: faz brotar a água do rochedo (1ª leitura); a Sua misericórdia falará sempre mais alto do que o nosso pecado (2ª leitura)… Assim estejamos nós dispostos saciar a nossa sede com a água daquele “poço” que Jesus nos quer oferecer!
LEITURA I – Livro do Êxodo 17, 3-7
Naqueles dias, o povo israelita, atormentado pela sede, começou a altercar com Moisés, dizendo:
«Porque nos tiraste do Egipto? Para nos deixares morrer à sede, a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?» […] O Senhor disse a Moisés: «[…] Toma na mão a vara […]. No monte Horeb baterás no rochedo e dele sairá água; então o povo poderá beber». Moisés assim fez à vista dos anciãos de Israel.
– A 1ª leitura é um texto que pertence às “tradições sobre a libertação” (cf. Ex 1-18) que narram intervenções de Jahwéh e do Seu servo Moisés, tendo em vista a libertação dos hebreus da opressão do Egipto. O episódio situa-se em Refidim, um oásis da península do Sinai perto do monte onde Deus entregou a Moisés as tábuas da Lei. Ao catequista, porém, mais que o enquadramento geográfico, interessa-lhe a catequese…
– Que catequese? Sobre o Deus libertador que conduziu Israel da escravidão à liberdade. Nem tudo foi linear… O episódio de hoje refere o “pôr à prova” e a “desconfiança”. Não apenas Moisés, mas também Deus, são alvo da cólera e da desconfiança do povo por causa da sede. “O Senhor está ou não no meio de nós?”; “Sim ou não, em que ficamos afinal?…” – é a recusa de Deus: a negação da Aliança!
– Àquele local passou a chamar-se “Massa” e “Meriba” que, em hebraico, significa: tentação e discussão. Tornou-se símbolo do endurecimento do coração de Israel. Como responde Jahwéh? Manda Moisés pegar na vara e bater com ela no rochedo do Horeb, e a água, dom gratuito de Deus, brotou com abundância. A partir de então, ensinam os rabis – também Paulo -, a rocha passou a acompanhar o povo no deserto.
LEITURA II – Romanos 5,1-2.5-8
Ora, a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado
em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.
Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. […] Deus prova assim o seu amor
para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.
– Paulo aproveita para dizer aos Romanos – e a nós também – que o Evangelho é para todos, sem distinção. A salvação não se conquista pela observância da Lei de Moisés, conforme a pretensão judaica… os judeus e todos os homens vivem mergulhados no pecado, mas a “justiça de Deus” a todos quer dar a vida. No texto que escutámos, Paulo refere como Deus, por Jesus Cristo e pelo Espírito, “justifica” todo o homem.
– Ainda no texto de hoje (vv 1e 2), Paulo aponta os efeitos da obra salvadora de Deus: além de nos alcançar a paz, temos acesso, na fé, à graça – a graça santificante, a graça da justificação que nos torna justos, santos, amigos de Deus -, a um orgulho santo e à esperança que não engana. O seu fundamento não é a Lei, mas o amor: o amor de Deus que, longe de ser não é uma teoria, se revela na morte de Jesus Cristo pelos pecadores.
– O excerto de Romanos hoje lido é uma firme afirmação da justificação pela fé, que se manifesta de forma inequívoca: nós estamos em paz – uma paz que é mais que a paz interior, do coração, mas resulta da comunhão de vida com Deus, por Cristo, no Espírito Santo que nos foi dado e nos faz experimentar o amor de Deus. Paulo exprime de forma muito clara este laço entre o Espírito Santo e o amor de Deus.
EVANGELHO – João 4,5-42
Chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar. […] cansado da caminhada,
sentou Se à beira do poço. […]. Veio uma mulher da Samaria para tirar água.
Disse lhe Jesus: «Dá Me de beber». […] Respondeu-Lhe a samaritana:
«Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana […]
Disse lhe Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz:
‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva». […]
Disse-Lhe a mulher: «Eu sei que há de vir o Messias, isto é, Aquele que chamam Cristo.
Quando vier há de anunciar nos todas as coisas».
Respondeu-lhe Jesus: «Sou Eu, que estou a falar contigo».
– O Evangelho situa-nos junto de um poço, na cidade samaritana de Sicar. A Samaria é a região central da Palestina – uma região heterodoxa, habitada por uma raça de sangue mestiço (de judeus e pagãos) e de religião sincretista. Por estas razões, os judeus desprezavam os samaritanos considerando-os hereges em relação à pureza da fé jahwista; e os samaritanos pagavam aos judeus com um desprezo semelhante.
– O “poço” representa a Lei… a água que dele jorra satisfazia a sede de vida daqueles que o procuram? Não! Por isso os samaritanos iam saciando a sua sede em experiências religiosas que levavam a uma moral alternativa… os tais “cinco maridos” que a samaritana… Jesus, o “novo poço”, propõe-lhe uma “água viva”, aquela que d’Ele jorra, a “água do Espírito” que saciará a sede dos que têm sede de vida plena.
– «Dá-Me de beber» (v 8), assim abre Jesus o maior diálogo de todo o Novo Testamento. Será a mulher a quem Jesus pede, que Lhe pedirá: «Senhor, dá-me dessa água»… Deus pede para dar! Que faz a mulher depois de ter encontrado Cristo? O mesmo que faz qualquer discípulo: “Abandona a bilha” – de que já não precisa, pois encontrou a água viva – e corre a anunciar a todos a sua descoberta e a sua felicidade.
Rezar a Palavra
Que “poço”… que água a daquele “poço”, Senhor! Jorra de Vós a água viva que sacia a sede de vida plena que sinto em mim. Bendito sejais, Senhor Jesus, o Messias, o Salvador! Pela água viva da vossa presença, nos levais a adorar o Pai em Espírito e em verdade. Corra eu ao encontro dos meus irmãos, perdidos entre tantos “poços”, levando-os ao “poço” daquela água que a gente, bebendo-a, não sente mais sede. Amem.
Cónego Armando Duarte
8 de março 2026