Papa Francisco: um exigente programa para a Quaresma

 

Na Quaresma, fazer um programa de vida em que se desdobram as devoções e multiplicam os gestos penitenciais, que depois cumprimos – ou não cumprimos – de uma forma casuística, é uma enorme tentação. Na sua Mensagem para a Quaresma o Papa pede mais: que vivamos enxertados em Cristo, na Sua pobreza, na Sua humildade, ocupando-nos dos nossos irmãos. É tudo o necessário.

«À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. […] A miséria não coincide com a pobreza; […] Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. […] O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna».

Não é fácil amar o próximo com o próprio Amor de Deus; amar o próximo como somos amados por Jesus, que Se fez nosso próximo. «Quem pode explicar o amor de Cristo?», pergunta São Rafael Arnaiz Baron, monge trapista espanhol que viveu na primeira metade do século passado. «Que os homens e as outras criaturas se calem; calemo-nos, para que, no silêncio, escutemos os sussurros do amor, do amor humilde, do amor paciente, do amor imenso, infinito, que Jesus nos oferece, pregado à sua cruz, com os braços totalmente abertos. O mundo, na sua loucura, não O escuta».

Também nossa Mãe Santíssima nos exorta a estar atentos – a ter compaixão! – daqueles nossos irmãos que permanecem afastados de Deus, daqueles que estão longe da oração e não têm paz. A 13 de Julho de 1917, na 3ª Aparição aos pastorinhos, na Cova da Iria, Nossa Senhora disse-lhes: «Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes, em especial sempre que fizerdes algum sacrifício: Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria». E depois da visão do inferno, prosseguiu a Senhora: «Vistes o inferno para onde vão as almas dos pobres pecadores; para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser salvar-se-ão muitas almas e terão paz».

Nós, que somos este povo que reconhece o Senhor como único Senhor e procura viver de acordo com os seus mandamentos, temos «a missão de levar ao mundo a esperança e a salvação de Deus: ser sinal do amor de Deus que chama todos à amizade com Ele; ser fermento que faz levedar toda a massa, sal que dá sabor e que preserva da corrupção, ser luz que ilumina», disse o Papa Francisco na catequese da Audiência Geral do dia 5 de Junho. Mas disse mais: «Ao nosso redor, […] a presença do mal existe, […] o diabo age. Mas gostaria de dizer em voz alta: Deus é mais forte! […] Porque Ele é o Senhor, o único Senhor! E gostaria de acrescentar também que a realidade às vezes obscura, marcada pelo mal, pode mudar se formos os primeiros a transmitir a luz do Evangelho, principalmente através da nossa própria vida». E insistiu: «Ser Povo de Deus, segundo o grande desígnio de amor do Pai, quer dizer ser o fermento de Deus nesta nossa humanidade, significa anunciar e levar a salvação de Deus a este nosso mundo, que muitas vezes se sente perdido, necessitado de respostas que animem, que infundam esperança e que dêem um vigor renovado ao caminho. A Igreja seja lugar da misericórdia e da esperança de Deus, onde cada qual possa sentir-se acolhido, amado, perdoado e encorajado a viver em conformidade com a vida boa do Evangelho. E para fazer com que o outro se sinta acolhido, amado, perdoado e encorajado, a Igreja deve manter as suas portas abertas, a fim de que todos possam entrar. E nós temos de sair através de tais portas e anunciar o Evangelho».

«Jesus não é uma ideia», ou, como ainda recentemente, na homilia do dia 21 de Fevereiro, na Casa de Santa Marta, afirmou o Papa Francisco, «uma fé que não dá frutos por meio das obras não é fé». E, com a frontalidade a que já nos habitou, apontou o dedo aos cristãos que recitam o Credo na perfeição, mas sem que isso tenha consequência nas suas vidas. «O mundo está cheio desses cristãos» enfatizou. «’Mas eu tenho muita fé’, ouvimos dizer. ‘Eu acredito em tudo, tudo…’. Porém a vida que se leva é uma vida morna. […] Podemos conhecer todos os mandamentos, todas as profecias, todas as verdades da fé, mas, sem a prática, de nada serve. Pode-se recitar o credo e não ter fé, acontece isso com muita gente. Até com os demónios! Os demónios sabem o que se diz no Credo e sabem também que aquilo que se diz é verdadeiro. Terão fé os demónios? Não, não têm, embora até tremam diante de Deus… Os demónios não têm fé, porque ter fé não é ter um conhecimento, mas acolher a boa nova de Deus trazida por Cristo», apressou-se a esclarecer o Santo Padre.

Os demónios, os eruditos da teologia, «os cristãos que pensam a fé como um sistema de ideias», aqueles que se enredam na casuística, são colocados, pelo Papa Francisco, no mesmo saco. Quem se fica na erudição, «quem cai na casuística ou na ideologia, são cristãos que conhecem a doutrina, até especulam sobre ela, mas não têm fé; como os demónios. Com a diferença de que os demónios tremem diante de Deus, mas estes não: estes vivem tranquilos».

Deixem-se de retóricas, de divagações, de ideologias, de casuísticas… São Rafael Arnáiz Barón, já citado neste texto, anima-nos para a missão quando nos fala da sua própria experiência: «Que venham os sábios, perguntando onde está Deus. Deus encontra-Se onde o sábio, com toda a sua orgulhosa ciência, não consegue chegar. Deus encontra-Se no coração desprendido, no silêncio da oração, no sofrimento como sacrifício voluntário, no vazio do mundo e das suas criaturas. Deus está na cruz; enquanto não amarmos a cruz, não O veremos, não O sentiremos. Calai-vos homens, que não parais de fazer barulho!».

Testemunhem Deus! Entenda-se: sejam coerentes na prática da vida com a fé que professam. A solicitude por todos aqueles em cujo coração não está Deus, é uma obra da fé. Mas atenção… O Papa Francisco, a um grupo de crismandos, dizia há dias: «Se estás diante de um ateu que te diz que não acredita em Deus, tu podes ler-lhe uma biblioteca de livros que provam a existência, e ele permanecerá sem fé. Mas se, diante desse ateu, tu deres testemunho de uma vida cristã coerente, alguma coisa começará a acontecer no seu coração. O teu testemunho vai provocar-lhe a inquietação, e o Espírito Santo vai trabalhar nela. É uma graça que todos nós, toda a Igreja tem que pedir: ‘Senhor, que sejamos coerentes’».

Termino como o Papa Francisco termina a Mensagem para a Quaresma: «Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!». Santa Quaresma!

Cónego Armando Duarte