Ideia principal: A 1ª leitura da Missa (Atos 1,1-11) dá-nos conta daquilo que hoje celebramos: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o projeto do Pai, entrou na vida definitiva da comunhão com Deus, a vida que experimentarão por toda a eternidade aqueles que percorrerem o “caminho” que Ele percorreu. Entretanto os discípulos, nós também, não podem ficar a olhar para o Céu, mas, segundo a sua própria vocação, devem dar continuidade, neste mundo, à missão de Jesus.
LEITURA I – Atos dos Apóstolos 1,1-11
«Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?» Ele respondeu-lhes:
«Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade;
mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas
em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra».
- É Lucas o autor dos Atos dos Apóstolos, o “Evangelho do Espírito Santo, escrito na década de 70, quando já reina uma certa desilusão… O mundo está igual ao que era e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada… e Jesus já ressuscitou há cerca de 40 anos! Os Apóstolos dirigem a Jesus a pergunta que muitos cristãos da época gostariam de Lhe fazer: «É agora que vais restaurar o reino de Israel?» (At 1,6)
- Na resposta, Jesus fala da vinda do Espírito e da missão dos discípulos. Depois da Ascensão – o relato está muito envolto na roupagem dos símbolos… – surgem de rompante dois homens com um importante dizer, destinado aos Apóstolos e a nós… esforçai-vos por levar a cabo a missão que vos foi confiada: «ser minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra» (At 1,8)
- A Ascensão não é o anúncio de uma “ausência”, mas de uma “presença”… Uma presença misteriosa, mas real e tangível: Jesus está presente e com Ele o Espírito Santo! Na força do Espírito, entre o já da Ascensão e o ainda não da Parusia, temos nas mãos o mandato do anúncio do Evangelho da alegria. Cristo está sentado à direita do Pai; mas a Sua Igreja – que nós somos – está no mundo, em missão… uma Igreja em saída!
LEITURA II – Epístola aos Efésios 1, 17-23
[…] O Deus de Nosso Senhor vos conceda um espírito de sabedoria e de luz
para O conhecerdes plenamente […] Assim o mostra a eficácia
da poderosa força que exerceu em Cristo, […]. […] Pô-1’O acima de todas as coisas
como Cabeça de toda a Igreja, que é o Seu Corpo, a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.
- A Carta aos Efésios, dirigida a partir do cativeiro de Roma, pelos anos 58/60, a várias igrejas da Ásia Menor, constitui uma bela síntese da teologia paulina. Em concreto, o texto que nos é proposto como 2ª Leitura da missa da Ascensão, faz parte de uma ação de graças, logo no princípio da Carta, na qual Paulo agradece a Deus pela fé dos Efésios e pela caridade que eles manifestam para com todos os irmãos na fé.
- Paulo pede a Deus que conceda sabedoria aos cristãos, a fim de compreenderem o “mistério” da Igreja; e que ilumine os olhos dos seus corações para que compreendam a esperança à qual são chamados. E assim, mesmo comprometidos nas atividades do dia a dia, não viverão alienados dos seus deveres neste mundo, mas farão o que devem fazer numa atitude de quem espera que Cristo volte para os levar com Ele.
- Neste trecho são enunciados dois conceitos que definem o quadro da relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”). A Igreja é a plenitude de Cristo, “o Cristo total” – é Cristo que se expande e se prolonga nos fiéis que aderem a Ele. A Igreja recebe de Cristo-“cabeça”, não só a chefia, mas o influxo vital, a graça; com efeito, ela vive de Cristo e O torna presente no mundo.
EVANGELHO – Mateus 28,16-20
[…] os onze discípulos partiram para a Galileia, em direção ao monte que Jesus lhes indicara.
Quando O viram, adoraram n’O; mas alguns ainda duvidaram.
Jesus aproximou Se e disse lhes: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra.
Ide e ensinai todas as nações,
batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo,
ensinando as a cumprir tudo o que vos mandei.
Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».
- O texto situa-nos na Galileia, após a ressurreição de Jesus. Galileia, ponto de encontro de muitos povos… Esta ambientação geográfica tem um valor teológico: a missão dos Apóstolos começa aonde começou a de Jesus, uma e outra com uma dimensão universal, dirige-se a judeus e a pagãos. Na Galileia e num monte, o lugar das manifestações de Deus: o envio dos discípulos é um acontecimento decisivo.
- O Ressuscitado, revela-Se aos discípulos que O reconhecem como “o Senhor”, e adoram-n’O. Mas “alguns ainda duvidaram” (Mt 28, 17)… A comunidade cristã é composta por pessoas onde continua a estar presente o bem e o mal, a luz e as trevas: têm fé, mas persistem ainda dúvidas e incertezas. Acreditar em Cristo e ter dúvidas, é possível; o que não é possível é ter fé com a evidência do face-a-face com Deus.
- “Ide e ensinai […], batizando em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando a cumprir tudo o que vos mandei” (Mt 28,15), é a missão confiada à Igreja discipular, reunida em torno do único Mestre e Senhor. Os discípulos devem ensinar, não como mestres, mas permanecendo discípulos. Só permanecendo discípulos fiéis, podem ensinar: «[…] um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos» (Mt, 23,8).
Rezar a Palavra
Senhor Jesus, hoje é dia de subir convosco… Do Céu me atraís como um íman! Não admira…levastes para o Céu uma natureza humana que, por inteiro, assumistes, para que um dia seja, eu próprio, revestido de um corpo glorioso e participe da vossa glória. Hoje é também o dia em que, de novo, me remetes para a missão… Jesus, enchei-me do Espírito Santo, para semear a esperança nos desertos deste mundo. Amem.
Cónego Armando Duarte
17 de maio de 2026